“Não sei nadar! Onda pra mim só no raso”, dona Fusae, 75, nascida em Tóquio, cidadã de Santos

Fusae Nishida Uraimoto nasceu em Tóquio, Japão, em 1930, e veio para o Brasil, com a família, aos três anos de idade. Em 70, mudou-se para Santos. Um dia, há cerca de quatro anos, caminhando pela praia, avistou umas moças com pranchas. “Aí eu pensei: Nossa, que bonito! Também quelo”, relembra Fusae, que fala com um forte sotaque e as inflexões típicas dos imigrantes japoneses.

Pediu para que a deixassem experimentar, experimentou e foi levada por uma das moças para se inscrever na escola. A moça, Simone, era uma das professoras. “Quando ela perguntou minha idade, se espantou, mas deixou”, disse a japonesa. Porém, o que Fusae ainda não havia dito para a professora era que não sabia nadar. E, pasme, até hoje não aprendeu: “Não sei nadar. Não vai no fundo, professor não deixa, mas pode ver que tem onda no raso pra mim, então não tem perigo”. Quanto à sensação de ficar em pé na prancha, dispara: “Dentro da água esqueço tudo, dor, problema, só fico com aquela vontade de fazer um 360° no bodyboard ou de ficar de pé no prancha grande, nem frio não sente... Ah, não pode explicar... Senhor vai lá e experimenta”.

A fim de compartilhar sua conquista e tantos benefícios, Fusae decidiu convidar sua patrícia Reiko Konno para participar das aulas. “Quando fiz primeira aula, nooossa, muito bom! Saiu levinho, levinho... Aí, pensei: nooossa, vou fazer isso até fim de minha vida. Porque mar traz coisa tão boa dentro do peito da gente. Nooossa, é bom demais, né?” E completa: “Mar, céu e espuma branquiiinha... Só aquele momento parece que vida está dentro da gente. Tudo de ruim vai embora... Esquece tudo que falta pra gente”.

Nenhum dos três alunos sabe quem são Kelly Slater ou Eddie Aikau, mas veneram seus mestres Paji, Simone e principalmente o surf-legend Cisco Araña, professor e fundador da escola Radical (leia mais adiante).

Mesmo sem saber o que é um bottom-turn (cavada) ou dar um pauladão no lip da onda (batida), Annibal, Fusae e Reiko parecem ter aprendido a mais difícil de todas as manobras: dar um backside para o que a vida nos apresenta como problema e seguir em frente. Sempre deslizando.

 
“Mar tem muita coisa boa, coisa de zen. Quando fiz a primeira aula pensei: nooossa, vou fazer isso até fim de minha vida. Porque mar traz coisa tão boa dentro do peito da gente. Nooossa, é bom demais, né?”, dona Reiko, 76, que mesmo sem uma rótula da perna fica em pé na prancha
Siga a Onda: A escola Radical dá aulas e fornece todos os equipamentos necessários, gratuitamente. São 180 vagas com aulas de 2a a 6a. Mais informações pelos telefones (13) 3251-9838 ou (13) 3269-808

Revista Trip 142

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