Surf de classe
Conheça Cisco Araña, o professor que ensina ética por meio de marés

O quadro-negro dele é o oceano Atlântico. E os alunos aprendem deitados ou em pé sobre grandes tábuas. Professor Cisco é um pioneiro. Ele demonstrou que, se o samba talvez não se aprenda na escola, o surf sim. Militante das ondas desde 1968, quando enfiou n’água pela primeira vez um pranchão de fibra de vidro de mais de três metros, este santista de 49 anos é o homem por trás da Radical, o colégio dos setentões Reiko, Annibal e Fusae e de outros mais de 200 alunos de diversas outras faixas etárias.

Francisco Alfredo Alegre Araña, o Cisco Araña, criou a escola de surf entre 1991 e 1992, em parceria com Marcelo Arias. Os dois são formados em educação física. Embora sua escola tenha ajudado a formar outros campeões, como Giovanni Ferrante e Andrew Serrano, professor Cisco é um mestre do espírito menos WCT possível. “O importante para mim é passar a coisa do aloha, da camaradagem do surf”, afirma.

Dentro desse espírito, cada faixa etária, cada aluno tem um tratamento diferente para suas possibilidades. Cisco não esconde que quando começou a trabalhar com septuagenários achou que não daria certo. “Quando fui ensinar o primeiro pensei: ´Puta, esse cara vai morrer na minha mão! Meu, como é que eu vou fazer esse cara surfar com 74 anos?`. Aí, iniciamos ele no bodyboard, e depois ele já quis surfar em pé. Adequamos um equipamento pra ele, que surfou com a gente por vários anos. Depois de um tempo, o cara vinha correndo da casa dele pra praticar.”

No princípio, professor Cisco só se interessa por uma coisa. O aluno pode começar deitado em longboards, pode tentar ficar de pé, pode começar com bodyboard. O importante, diz Cisco, é “deslizar”.

Quando o tempo fecha, em dias de ressaca, raios ou muito frio, os alunos “deslizam” de outra forma. Eles recebem aulas teóricas sobre temas como ecologia, evolução das pranchas, histórico do surf, estudam a meteorologia, as marés, os caprichos do mar.

Mesmo fora d’água, o importante, para Cisco, é não perder contato com ela. “Tenho um caminho de vida taoísta, que é o caminho da água. Nada é por acaso”, completa o professor Aloha.

 
 

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Revista Trip 142

 

Currículo da vida
O que realmente me influenciou foi minha família, pai e mãe, e o fato de termos acesso e hábito da leitura dentro de casa. Em particular acredito que o esporte me proporcionou uma grande parte da construção de valores fundamentais como respeito, socialização, ética. Acredito em mestres e, no surf, tenho Carlos Mudinho como peça importante em meu crescimento como indivíduo. Aloha.
(CA